Arthur IV

"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce." (Fernando Pessoa)

27.3.08

No meu jardim

São Paulo, 12 de março de 2008 (quarta-feira) – 02:35

No meu jardim...

... Há uma flor de junho que orbita sob a constelação de câncer. Sua raiz habita o solo mais fértil da terra que ouso chamar de alma. Obrigo-me a confessar que este andou por certo tempo árido, até que umas ditas raízes aconchegaram-se por entre o calor de sua fecundidade oculta. Trato de dizer que ela nasceu em uma terra privilegiada, às margens do rio-mar, e se deixou colher suave por minhas mãos saudosas e trêmulas. E agora, em meu regaço de jardineiro devotado, a cada dia, vejo o desabrochar de cores novas, que vão trazendo alento e felicidade ao meu coração. Por gosto, procuro não apenas regá-la sempre, mas também buscar-lhe adubos em mimos de fazer florescer a mais sólida pedra. Peço aos deuses que suas pétalas e folhas e caule se revigorem de instante a instante. E que sua raiz esteja sempre firme no terreno fértil em que me foi permitido plantá-la.

Para Silvinha.
27/03/2008 – 09:09

1.5.07

Excrescências

São Paulo, 1º de maio de 2007 (terça-feira) - aproximadamente 21:30

Penso que, mais cedo ou mais tarde, invariavelmente, as pessoas vão descobrindo a vida. Isso pode parecer óbvio, em primeira instância, porém, sinto-me na obrigação de contrariar essa teoria. Digo isso porque acredito existirem, de fato, alguns gêneros de acéfalos que insistem em bater a inexistente cabeça no concreto ou em outras substâncias duras que o valham.

Enfim, não estou aqui para ficar exaltando os que vivem e criticando os que preferem morrer, mas para relatar algumas das excrescências deste que "humildemente" vos escreve. É como uma espécie de "memorário" em que a posteridade se baseie para nada, se quiser. Ou para outras excrescências mais.

A questão é muito simples: qual o sentido da vida? Ora, ora, ora, qualquer um sabe responder a essa pergunta! Afinal de contas, para que estou eu aqui, a dedilhar um teclado brasileiro, configuração ABNT2? Certamente, não é para explicar isso. Você que descubra.

Mas... Chega de rodeios. Desde que aportei aqui, nesta dita "locomotiva do País", continuo não tendo nada a reclamar da vida. Como diria um amigo, a cada dia, vivo num "mundo melhor" - e não confunda isso com as desgraças apocalípticas das catástrofes naturais, da fome ou da guerra. Aqui, trata-se de uma questão de vista de ponto. E assim vou escolhendo as minhas referências.

Hoje, por exemplo, fui dar um passeio no parque. Ele estava lá, gratuito e sereno, e fui encontrar uma senhorita muito bacana, com quem conversei a tarde inteira. Isso, sem contar a companhia de outros amigos, gratuitos e cativos, e a cerveja de depois.

Sim, estou satisfeito. Não por que "sou Élmer, o milionário, possuo uma mansão e um iate" (essa frase, tirei de um desenho do Pernalonga). Mas porque assim escolhi. E vos convido a fazer o mesmo.

01/05/2007 - 22:06

30.1.07

Pensamento I

A existência da Paixão não pressupõe a inexistência do distanciamento. Ela pode ser lúcida. É quando mais dói.

26.1.07

Inquietude XI (Morte)

Belo Horizonte, 25 de janeiro de 2007 (quinta-feira) – 01:15

Ora, como poderia eu ter a pretensão de salvá-lo privando-o de meu amor para que sobrevivesse à morte do corpo? Como poderia eu ter a pretensão de um suposto altruísmo – por amor – depois que ele me havia ensinado tudo aquilo que é mais importante? Hoje, não estou mais aqui. Há tempos, parti, naquela mesma noite em que, certa de meu inevitável destino, fiz por magoá-lo no imo da alma. Hoje, pergunto-me, qual o sentido de salvá-lo da morte se esta nada mais é do que o que o obriguei a viver naquela noite, depois do espetáculo? Sim, o show deve continuar. Ainda que sem luzes, coberto pela tristeza eterna a que o entreguei por fingir que o havia enganado quando disse que o amava. Valeria dizer que, se fosse agora, se eu pudesse voltar atrás, seria diferente? Naquele tempo, eu não sabia. Como ele sobreviveu à vida com a certeza de que eu não o amava (sendo que ele me amava tanto), se isto não era verdade? Embora eu nunca mais o tenha visto, sei que ele me vê, a todo instante, nas lembranças do toque e no calor dissipado do meu último suspiro. Sei que caminha, pelos cantos e ruas das noites lentas e sem fim que permeiam os corações em desalento. Sim, eu o salvei da morte física. Mas o matei com requintes cruéis. Se me arrependo? Ora, que seria eu se dissesse que não? Talvez, se continuássemos, um dia rompêssemos, por outra razão qualquer, e cada um seguiria o seu meio, o seu fim. Porém, preferi antecipá-lo, como a controlar um destino que coloquei nas minhas próprias mãos ensangüentadas. Ah, que pretensão tive! Entreguei-o ao fardo da amargura, transfigurando em fel a doçura do beijo que tantas vezes nos uniu. Quisera eu renascê-lo. Quisera eu bafejar seu espírito com um novo lampejo de vida. Infelizmente, não posso mais. Resta-me apenas amá-lo, e mais, tendo a certeza de que ele o fez (e ainda o faz) por mim. Naquela noite, parti, vítima das vicissitudes físicas. Desde então, pergunto-me quem, de fato, morreu.

25/01/2007 – 02:00

25.1.07

Inquietude X (Inefabilidade)

Belo Horizonte, 25 de janeiro de 2007 (quinta-feira) – 20:42

Vinte e dois minutos e trinta e oito segundos. Menos do que a metade, pouco mais do que um terço de hora. Não, o suposto título alternativo não encerra, em si, uma contradição do que correm nestas linhas... Linhas... Linhas... Ouvia os dedos a correrem pelas notas da guitarra. Eu, das cordas que desindependentes da minha limitada audição soavam no contratempo da luz azul que adentrava, intermitente, a fresta da fresta da outra janela. E da fumaça que envolvia os pulmões, o rosto, a sala, deixando seu rastro de olores lascivos. Uma espécie de auto-retrato políguo do instante em que a porta se abriu e as poucas – e rápidas – palavras conotavam a ansiedade do silêncio absoluto e do não menos pretensioso desejo da escuridão total. “Não vai comer nada não?, Agora não, daqui a pouco.” Bestializado, sem necessidades fisiológicas que, de fato, premiam, no âmbito racional. Apenas a vontade autofágica de sensações e despertares de ocultos ou temidos estares experienciáveis ou não. O compasso, a retidão primitiva, a gênese do indescritível... Indescritível... Indescritível... Escadaria abaixo. Porta. Gotas brotando do chão, cada vez mais velozes. Fogos-fátuos derramando-se por sobre. Porta. Elevador. Porta. Palavras. Clausura. Despido. Nu. Nu. Nu. Servil, um tanto. Inefável. Depois da aula de bolero, Bolèro. Vinte e dois minutos e trinta e oito segundos.

25/01/2007 – 21:07

9.11.05

Inquietude IX (Borbotão)

Belo Horizonte, 9 de novembro de 2005 (quarta-feira) – 01:35

Estou, mais uma vez, às voltas com a ávida inquietude.

É excruciante como as coisas podem ser ao mesmo tempo boas e ruins e pálidas em nossa rotina sufocante de um instante após o outro que se apropria dos pequenos prazeres fúteis e extáticos porque o gozo precede o fim da plenitude fugaz alcançada ao custo de minúsculas pendências verídicas que não passam de ilusões pérfidas da construção de um futuro gélido acreditado ditoso por todos aqueles que compactuam com a morbidez “transgênica” concomitante ao atavismo louco de desejos nada instintivos mas impostos pela milenar tradição de fazer um certo e outro acerto sem esquecer da pontualidade exigida para cada novo fim aliás começo disfarçado de objetivo meta alcance precedido por planos disciplina bestial qual aquela da matilha que cede ao líder as fêmeas escolhidas por simples auto-afirmação do privilégio sobre o fraco até que este o desafie e vença ocupando o lugar anteriormente cobiçado mas desprezado em razão do desdém pelo que se quer comprar qual forma de temor disfarçado de respeito agora conquistado em batalha de morte vislumbrada a possibilidade de sobrepujar o opressor ditador ocupando e fazendo o dantes questionado já que diferente se torna o varão mais viril escrotal tal a fé no poder precedente querer outorgado julgado mérito próprio e exclusivo não possuído de fato mas biblificado pelo costume de ser não mas se não transformado em apoio decente vitória da mente encalhada em contradições congênitas e precursoras da própria existência inútil por vezes descartável da vontade de ser não apenas estar um momento limite tênue porém verossímil da parca e medíocre vida que chamamos enraivecidos envaidecidos nossa.

09/11/2005 – 02:01

18.10.05

Votos

Bruno Milagres

Estive pensando a respeito do referendo sobre o desarmamento, e umas coisas estranhas, digo, engraçadas, talvez, me apareceram. Referendo desde o princípio sempre me lembra "reverendo". Mas acho que isso não importa.

A questão das armas, esta, sim, tem importância agora.

Hoje cedo, vi algumas crianças dormindo na rua. Elas pareciam fazer parte de um cenário, todas dispostas de forma tão perfeita em meio ao amontoado de papelão e lixo. As pessoas que andavam pelas ruas, todas tão “arrumadinhas”, de banho tomado e cabelo molhado, seguindo para seu cotidiano de trabalho. Vi um senhor que andava sozinho, com passos lentos e olhar perdido. Vi os meninos seguindo para o colégio, conversando calorosamente.

A gente vê tanta coisa no caminho da casa para o trabalho.

Ainda não falei de armas, não é? Mas já chego nelas.

Hoje houve uma briga no parlamento. Dois deputados em uma discussão ferrenha, partindo para uma agressão física, foram os personagens de mais uma comédia da vida pública. Hoje, o presidente fez o que os presidentes fazem no seu dia-a-dia. Os juízes julgaram, os artistas pintaram, os garis varreram, os jornalistas escreveram e, claro, os amantes, amaram-se.

Agora, vou falar do reverendo.

São tantos argumentos sobre o assunto e tantas opiniões e tantos números e tantos discursos que, por um breve momento, acho que entendi sobre o que se trata o referendo. Acho, pois, são duas da manhã e, talvez, eu só esteja com um pouco de sono. Trata-se de uma disputa entre o “sim” e o “não”, entre o “ser” e o “não ser”, entre dois lados.

Quando criança, tive algumas brigas, e hoje me lembro de muito pouco sobre elas e seus motivos. As crianças na rua brigam todos os dias para viverem mais um dia. O gari briga com o sol do meio-dia. No parlamento, a briga é pelo poder. O presidente briga para manter o controle. O senhor que andava lentamente briga com as lembranças. Acho que eu brigo com as palavras agora. E todos nós brigamos com as armas que temos: punhos, pincéis, palavras e também armas de fogo.

Estamos armados o tempo todo. E não iremos nos desarmar.

As armas que usamos todos os dias, no nosso dia-a-dia, são muito mais letais que simples instrumentos. São invisíveis. São feitas de um material que não tem forma nem substância, de costumes, de valores, de idéias e ideais. E matam.

Todos estamos armados, mas, sim: podemos baixar as armas.